Por muito tempo o modelo padrão foi simples e conveniente: pessoas autistas têm um
déficit de comunicação social. Ponto. Todo o resto da engenharia clínica seguiu daí.
A hipótese da dupla empatia, formulada por Damian Milton em 2012, propôs algo
razoavelmente inconveniente: o desencontro é bidirecional. Não-autistas leem pessoas
autistas mal na mesma proporção em que são mal lidos por elas. Não há um lado defeituoso;
há duas gramáticas diferentes esbarrando uma na outra.
Trabalhos posteriores testaram isso da forma mais óbvia possível — e que, curiosamente,
ninguém tinha feito. Montaram cadeias de transmissão de informação: grupos só de autistas,
grupos só de não-autistas, e grupos mistos.
O resultado
Grupos homogêneos transmitiram informação com eficiência comparável entre si. Os grupos
mistos foram os que perderam informação.
Ou seja: o problema não estava dentro de nenhum dos dois grupos. Estava na fronteira.
Há também achados sobre rapport: pessoas autistas relatam interações mais fluidas e
confortáveis entre si do que em contextos mistos. Uma descoberta que qualquer pessoa que
já esteve num servidor de Discord temático poderia ter entregue de graça, mas agora com
intervalo de confiança.
Por que isso importa aqui
Porque muda a pergunta. Não é mais "como te treinamos para funcionar entre eles". É
"onde você comunica bem, e por que passamos vinte anos chamando isso de isolamento".
Este site inteiro é, em algum nível, uma nota de rodapé aplicada dessa literatura.